A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, julho 30, 2005

No fim da linha

Eles fecharam os deles. Ele abriu o seu. Provavelmente, seguirei a maioria. Mas este continuará funcionando, desde que os demais integrantes e colaboradores não se oponham, e provavelmente contará com uma maior participação minha.

quinta-feira, julho 28, 2005

O controle do controle

Já que a moda é controlar, até mesmo os médicos - a quem é dado o poder de controlar a vida dos cidadãos, com as tradicionais e ao mesmo tempo sempre inovadoras dicas do bem bem-viver - estão sendo controlados, por enquanto por outros médicos, mas futuramente por algum burocrata, ainda que médico.

Foi criada uma comissão encarregada de revalidar o título de especialista destes profissionais, que estabaleceu critérios para pontuar a participação em Congressos e outras atividades de atualização. Em plena era da internet, onde qualquer um pode ter acesso a mais mínima novidade em sua área de atuação, ou seja, justamente quando os tais Congressos se tornaram desnecessários, a não ser como forma de encontro social, resolveram exigir dos médicos a obrigação de provar que é um indivíduo dedicado. A burrice da medida e o viés totalitário dispensam comentários, mas é bom fazer algumas considerações:

1) O comprovante de particpação em Congressos não comprova absolutamente nada, porque ninguém é capaz de avaliar o quanto um médico esteve atento às aulas ou até se chegou a comparecer, pois o diploma é entregue independentemente de tudo isso. E mesmo que tenha comparecido e prestado atenção, não há como saber se as palestras foram bem compreendidas ou se os conhecimentos serão bem aplicados na prática clínica. Em resumo, se um médico quiser continuar sendo um mau profissional, nada o impedirá de sê-lo, enquanto o que tiver interesse em melhorar sempre encontrará meios adequados para tanto, sempre muito melhores que todas as imposições superiores para que atinja sua meta;

2) Somente um idiota não percebe que os melhores juízes são os próprios pacientes, ainda que não disponham do conhecimento necessário para um bom julgamento, porque são eles que sentem as repercussões das medidas adotadas. É preciso estar muito influenciado por idéias totalitárias para acreditar que há uma forma de controle que tornará a medicina a salvação da humanidade.

Ums das coisas que mais me aborrece no dia-a-dia é quando o paciente me pergunta se eu o proíbo de fazer isso ou aquilo. Sou obrigado a repetir todos os dias que não os proíbo de nada, apenas dou conselhos baseando-me em conhecimentos aos quais ele não teve acesso, e que fica a seu cargo julgar se foram bons ou não e se deve segui-los. A medicina já levou os médicos a darem conselhos horríveis, que muitos indivíduos sensatos nunca deram ouvidos.

quarta-feira, julho 27, 2005

Brasil, o país do real

Sempre houve corrupção, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Mas, deixando de lado as questões políticas, o que mais incomoda é o baixo nível da corrupção petista. É bem verdade que o presidente Clinton teve seu nome associado a charutos enfiados em vaginas, mas foi um caso isolado e não envolvia dinheiro.

As notícias dos jornais e revistas de hoje se assemelham aos romances brasileiros modernos, com aquele ar sombrio e desagradável, em que ratos, lixo e cachaça são citações constantes. Qualquer autor de histórias policiais um pouco mais elegantes pensaria num apetrecho sofisticado, onde o ladrão pudesse esconder o roubo. Algo inteligente, difícil de imaginar. Aqui eles o escondem na cueca. Na cueca! E ainda dizem que o brasileiro é criativo. Tenho certeza que até Fernandinho Beira-Mar deve estar dando risada. Posso até vê-lo desligar o televisor e comentar baixinho consigo mesmo que eles precisam de uma aulinha.

A realidade brasileira não serve nem como ficção. Até Sidney Sheldon faria melhor.

segunda-feira, julho 25, 2005

Palavras de Eric Voegelin

O risco de um colapso da fé em grau socialmente significativo aumenta na medida em que o Cristianismo penetra inteiramente numa área civilizacional, com o apoio de pressões institucionais, e, ao mesmo tempo, sofre um processo interno de espiritualização, de realização mais plena de sua essência. Quanto mais pessoas são atraídas para a órbita cristã, de moto próprio ou sob pressão, maior será o número daqueles que não possuem a força espiritual exigida para a heróica aventura da alma que é o Cristianismo. A probabilidade da perda da fé aumenta também na medida em que o progresso civilizacional da educação, da alfabetização e do debate intelectual faz com que toda a seriedade do Cristianismo seja compreendida por um número crescente de pessoas. Esses dois processos caracterizam o apogeu da Idade Média. Os pormenores históricos não vêm ao caso; basta mencionar o crescimento das sociedades urbanas, com sua intensa cultura espiritual, como centros primários a partir dos quais o perigo se irradiou a toda a sociedade ocidental.

(...)

o gnosticismo medieval está ligado ao gnosticismo contemporâneo por uma linha de transformação gradual. E, na verdade, a transformação é tão gradual que seria difécil decidir se os fenômenos contemporâneos devem ser classificados como cristãos, já que derivam claramente das heresias cristãs da Idade Média, ou se os fenômenos medievais devem ser classificados como anticristãos, por serem claramente a origem do anticristianismo moderno. O melhor é deixar de lado tais questões e reconhecer à essência da modernidade como o crescimento do gnosticismo.

(...)

Não se deve esquecer jamais que a sociedade ocidental não é inteiramente moderna, e sim que a modernidade é um tumor dentro dela, em oposição à tradição clássica e cristã.

terça-feira, julho 19, 2005

A arte e a liturgia

Mais duas do poeta Ângelo Monteiro:

"Indiscutivelmente, a educação estética desenvolve um papel seletivo na formação humana. Quando mingua ou se depaupera no homem o sentimento estético, constatamos que a brutalidade e a barbárie tomam conta das relações sociais afetando a qualidade do gosto em outras esferas além da estética, como a ética e a religião. A pobreza de grandes gestos e ações, no campo ético, e a decadência cultural e litúrgica nas celebrações religiosas - em que a penúria musical e a inconsistente oratória sacra desempenham um papel deprimente - são sintomas desesperadores de que a sociedade vai mal estética e culturalmente."

"A linguagem litúrgica de suas [da religião] fórmulas dogmáticas, de seus textos, de seus hinos e de suas imagens se reveste sempre das mais elevadas formas artísticas para comunicar sua mensagem entre os homens. Toda vez, portanto, que a arte conhece a decadência, a religião é a primeira a sofrer os mais dolorosos impactos, principalmente em épocas de perigoso racionalismo, como na Grécia do tempo dos sofistas, no Iluminismo da Idade Moderna e no planejamento burocrático das sociedades ocidentais contemporâneas."

Quanto à decadência da arte gerar a decadência da religião, eu acrescentaria: e vice-versa, aliás, principalmente vice-versa.

segunda-feira, julho 18, 2005

E por que isso agora?

A filosofia de Sócrates foi a sua própria vida, a de Nietzsche a sua própria morte e a de Marx os seus furúnculos.

quinta-feira, julho 14, 2005

Duas do poeta Ângelo

"De igual forma que a razão - erigida em ídolo para a explicação de todas as coisas, como entidade ursupadora do antigo Deus teológico - parece se negar como um caminho progressivo do homem para o Absoluto, qual se fora inteiramente independente de sua própria consciência, também a liberdade, colocada como deusa, far-nos-á lembrar sempre a sentença de Tobias Barreto: 'A razão é a deusa da filosofalha, como a liberdade é a deusa da canalha'."

"Todo mundo está à busca de espaço, o que prova que ninguém mais respira o seu próprio ar e necessita cada vez mais de privar do ar alheio, justamente porque se perdeu o espaço que cada um encontrava em si mesmo, provavelmente a própria alma que dantes habitava os homens."


Ângelo Monteiro, em "Escolha e Sobrevivência"

domingo, julho 10, 2005

Atualização do Oito Colunas

Novo post no Oito. Zeus, Prometeu, Epimeteu, liberalismo, comunismo, conservadores. Tudo no mesmo artigo.

terça-feira, julho 05, 2005

O Globo definitivamente desarticulado

O Globo só tinha um articulista. Afinal, Olavo de Carvalho era o único colunista que articulava as idéias com a realidade, os outros, ao contrário, cuidavam de apagar essa relação. Dentro da linha ficcional de O Globo, ele sempre foi um estranho, alguém que não interagia com o restante do elenco nem se dava bem com os autores da peça.

Mas suportaram a sua presença por todos esses anos, apesar de todos os inconvenientes. Até ele passar do limites. Prever, com 10 anos de antecedência, tudo que acontece hoje no Brasil é levar a realidade a sério demais. É muito para O Globo, por mais que eles sejam bonzinhos e compreensivos.

segunda-feira, julho 04, 2005

Orgulho de ser brasileiro

A melhor palavra para conceituar o brasileiro é prepotência. O brasileiro é, acima de tudo, um prepotente. Porque prepotente é aquele que tem uma potência prévia, um poder prévio. Mas prévio a que? Prévio a tudo - ao esforço, ao conhecimento, à dedicação, ao estudo. Brasileiro é o que tem o poder prévio de saber qual o melhor regime de governo sem nunca ter estudado nenhum deles, é o que tem o poder de discutir assuntos dos quais nunca ouviu falar, é o que tem o poder de entender tudo sem ter lido nem analisado nada, enfim o brasileiro é aquele que pode tudo sem ter adquirido forças para nada.

Dia desse, vi na TV um sambista que dizia ser tão humilde que escrevia humildade sem agá. Ora, brincando ou não, ele acabou revelando uma das principais características do brasileiro: ter orgulho de ser ignorante. Quem não é ignorante tem que fingir ser. O orgulho dessa ignorância é tão grande que o levou a achar que é ela quem lhe dá poder. Daí a prepotência. A prepotência é, no fundo, o poder da ignorância. Quanto mais ignorante, maior o poder. Daí termos escolhido o atual presidente.

Lula é o representante mais digno do povo brasileiro. E não pensem que o povo vai se livrar tão fácil assim de seu auto-retrato. Porque o brasileiro ignora tudo, menos o orgulho.