A Barbárie dos Tempos Modernos

quinta-feira, julho 28, 2005

O controle do controle

Já que a moda é controlar, até mesmo os médicos - a quem é dado o poder de controlar a vida dos cidadãos, com as tradicionais e ao mesmo tempo sempre inovadoras dicas do bem bem-viver - estão sendo controlados, por enquanto por outros médicos, mas futuramente por algum burocrata, ainda que médico.

Foi criada uma comissão encarregada de revalidar o título de especialista destes profissionais, que estabaleceu critérios para pontuar a participação em Congressos e outras atividades de atualização. Em plena era da internet, onde qualquer um pode ter acesso a mais mínima novidade em sua área de atuação, ou seja, justamente quando os tais Congressos se tornaram desnecessários, a não ser como forma de encontro social, resolveram exigir dos médicos a obrigação de provar que é um indivíduo dedicado. A burrice da medida e o viés totalitário dispensam comentários, mas é bom fazer algumas considerações:

1) O comprovante de particpação em Congressos não comprova absolutamente nada, porque ninguém é capaz de avaliar o quanto um médico esteve atento às aulas ou até se chegou a comparecer, pois o diploma é entregue independentemente de tudo isso. E mesmo que tenha comparecido e prestado atenção, não há como saber se as palestras foram bem compreendidas ou se os conhecimentos serão bem aplicados na prática clínica. Em resumo, se um médico quiser continuar sendo um mau profissional, nada o impedirá de sê-lo, enquanto o que tiver interesse em melhorar sempre encontrará meios adequados para tanto, sempre muito melhores que todas as imposições superiores para que atinja sua meta;

2) Somente um idiota não percebe que os melhores juízes são os próprios pacientes, ainda que não disponham do conhecimento necessário para um bom julgamento, porque são eles que sentem as repercussões das medidas adotadas. É preciso estar muito influenciado por idéias totalitárias para acreditar que há uma forma de controle que tornará a medicina a salvação da humanidade.

Ums das coisas que mais me aborrece no dia-a-dia é quando o paciente me pergunta se eu o proíbo de fazer isso ou aquilo. Sou obrigado a repetir todos os dias que não os proíbo de nada, apenas dou conselhos baseando-me em conhecimentos aos quais ele não teve acesso, e que fica a seu cargo julgar se foram bons ou não e se deve segui-los. A medicina já levou os médicos a darem conselhos horríveis, que muitos indivíduos sensatos nunca deram ouvidos.